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APOIADORES E COLABORADORES DO AUDAX PARANÁ |





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Dia 26 de julho foi a data escolhida para a partida de um desafio, no mínimo irreverente. Roberto Coelho terá completado seus 55 anos de idade e 30 anos de Doença de Parkinson. “Vivo um momento único na minha vida. Com o final da bem sucedida série 2010 do Audax Paraná é chegada a hora de fazer um balanço de vida e de atividades . Precisamos disso de vez em quando. |
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Quando fiz 25 anos de diagnóstico, convidei meu filho mais velho, Daniel para uma pedalada até Florianópolis. Hoje minha vida mudou muito e o meu momento atual é bastante solitário. Porque não comemorar o meu aniversário e o aniversário de diagnóstico pedalando?” Afirma Coelho. Roberto Coelho conta os detalhes da viagem no projeto “A vida lhe dá limões? Faça uma limonada” que é também o titulo de uma palestra motivacional, baseada na sua história. |
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O desafio deverá estar concluído em 7 dias. A única estrutura de apoio será uma van, que levará a bagagem e peças de reposição (câmaras de ar, pneus, etc). Caso tenha interesse e possa auxiliar apoiando o projeto, clique no link abaixo e leia o projeto. Visite o blog do desafio: |
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ROGENIO BITTENCOURT CONTA COMO FOI PARA ELE A SÉRIE 2010 DO AUDAX PARANÁ |
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Em agosto de 2009 quando um colega comentou sobre a existência do Audax Paraná explicando ser um desafio pessoal que engloba 4 provas de resistência sendo elas: 200km, 300 km, 400km e 600km de imediato achei uma loucura. Questionei: quem em seu juizo perfeito faria uma prova dessas? Como se diz no popular: queimei a lingua! Fui atrás de informações, pesquisei “fucei” nas internet até encontrar o site audaxparaná.com.br. E lá fui eu; no mês de setembro voltei às pedaladas que havia abandonado há mais de 3 anos. Com 1,74m de altura e 90 kilos, a “coisa” não foi fácil pois estava ao menos 15 kilos acima peso. na prova dos 200km no dia 17/01/2010 já havia perdido 15 kilos, me sentia bem pronto para encarar o que desse e viesse! Como acumulo as atividades de advogado – no periodo diurno – e gerencio um choperia - na noite – fui para a prova sem ter dormido um minuto sequer de sábado para domingo. E lá fomos nós, cerca de 75 atletas! Minha primeira prova! Estava ansioso, adrenalina a 1000! Me senti um estranho no ninho pois não conhecia ninguém e fiquei isolado na pedalada. Mantive meu ritmo atento aos horários dos Postos de Controle – PC. Até os 150km tudo correu bem, no entanto, no ultimo PC antes da chegada decidi não parar sequer para comer algo, pois queria acompanhar 3 outros cliclistas, visto que a entrada em curitiba demandava de certo conhecimento da região – o qual eu não tinha – então apenas dei meu cartão para o fiscal anotar e segui em frente. Primeiro erro: com mais uns 20 km de pedalada tive o chamado prego de fome! As pernas estavam pesando toneladas e não atendiam mais ao comando do cérebro para pedalar, pareciam independentes, parei de transpirar, e uma dor de cabeça incrivel apareceu; perdi os três ciclistas de vista, pedalava no plano numa velocidade não superior a 15km! Até aquele momento foram os 30 km mais terríveis que já tinha pedalado, mas enfim completei o percurso, exausto ao extremo. Decidi fazer a próxima etapa de 200km que iria acontecer no dia 07 de fevereiro, visando controlar a ansiedade e corrigir o erro sobre a alimentação, no entanto uma queda durante um treino no dia 31 de janeiro que me “rendeu” 3 pontos no joelho direito e 20 dias de paralisação total ! Para a prova dos 300km no dia 13/03 já me sentia bem novamente, agora um pouco melhor entrosado, pois surgiu a possibilidade de pedalar junto com os demais ciclistas de Ponta Grossa, Marcos e sua Esposa Makey, Jairo e sua namorada Gisele e o César. Os cinco já se conheciam e treinavam por vezes junto. Com o sono em dia, pois a largada se daria a noite (22:00) lá fomos nós, num ritmo moderado, sem loucuras, bate-papo, piadas, risos e sarros de diversos gêneros se fizeram presentes no decorrer dos primeiros 115 km, fui o único a furar pneu – 2! - Decidimos parar por volta das 03:20h - para descansar e nos alimentarmos e minutos após estarmos dentro da lanchonete do Posto de Combustível Ale, “Caiu o mundo em água” e a temperatura baixava incrivelmente – de onde estávamos podíamos ver uma torre junto a BR com o horário e temperatura – foram 5 graus de queda em duas horas! O dia amanhecia e a chuva deu uma trégua, passando a ser uma garoa fina, mas o frio era intenso, 11 graus. O grupo fez algumas avaliações tais como: Risco de asfalto molhado, distancia para o próximo PC, sair no frio e chuva desaquecidos, e o desgaste que teria que ser feito para imprimir um ritmo forte a fim de completar a prova no tempo limite. Decidiram por encerrar ali a participação! Calado eu apenas ouvia os argumentos de cada um, quando “bateram o martelo pela desistência” me manifestei pela primeira vez no sentido contrário, avisei que eu iria continuar, que não poderia desistir sem ao menos tentar, chamei todos para continuar, mantiveram firme a decisão de não prosseguir. Na seqüência convidei um a um individualmente, afirmando que seria possível chegar em tempo no próximo PC, e dosar as forças para os próximos, recebi de novo a negativa individual de cada um. Por fim pedi que todos fossem ao menos até o próximo PC que estava a 25 km de Ponta Grossa, caso não desse tempo, algum de nós pedalaria até Ponta Grossa, pegaria um outro carro e retornaria para recolher o grupo, novamente negativa total, estavam firmes na decisão de não continuar! Pedi ao César 3 câmaras emprestadas o que me foi cedido e prossegui agora sozinho, 50 km do próximo PC a serem percorridos em menos de 2h30min ! – Saí às 06:12h e precisava chegar ao PC até 08:00. Imprimi um ritmo forte nos primeiros 10, 12 km, e após me sentir aquecido aumentei para um ritmo alucinante, o conhecimento do trajeto foi primordial, pois sabia exatamente onde poderia forçar até meu limite, e aonde poderia/deveria economizar. Sabia que os últimos 9km antes do PC eram em descida, e ali poderia recuperar o esforço empreendido. Diversas vezes olhei para trás na esperança de ver os companheiros, mas foi em vão. Cheguei ao PC às 7:29 !! 31 minutos antes de seu fechamento, Feliz. O Roberto questionou sobre os companheiros, informei que haviam decidido parar. Neste PC tive uma desagradável surpresa, meu apoio me encontraria ali, trazendo uniforme, gel, comida, roupa de chuva, óculos de sol, enfim, todo o material necessário para o restante da prova, mas cadê ele, nada do apoio, liguei para o celular e obtive a mensagem de que estava desligado! Não podia esperar, tinha que prosseguir, pois estava no limite de tempo e ainda faltavam mais de 150 km. Voltei para estrada, e como parte do percurso era de retorno pelo mesmo trajeto da vinda – mais ou menos 30 km – ainda tinha a esperança de ver os companheiros vindo, mas fiquei somente na esperança. Depois de 15 km de pedalada a chuva torrencial voltou, os pingos grossos doíam ao bater no meu corpo, pedalava com a cabeça de lado pois sem óculos era impossível olhar diretamente para frente, sem roupa de chuva passei a sentir um frio intenso, foram quase 50 km de frio terrível. Parei numa lanchonete para tomar gatorade e comprar um misto frio para viagem, pelo nervosismo no PC anterior havia esquecido de me “abastecer”. Faltando aproximadamente 50 km para o próximo PC a chuva voltou a dar uma trégua, parei junto a um ponto de ônibus, tirei a camiseta e a torci, comi o misto frio, e tomei o ultimo sache de gel que tinha esgotando assim minha reserva de alimentos! Esses próximos 50 km eram para mim, os mais pesados, então dosei a pedalada, forçando apenas onde entendia que poderia ter algum resultado. Passei por outros 3 ciclistas, furei mais um pneu, e tentei me manter focado no restaurante que sabia existir no 3º. PC!!! Nesse trajeto os companheiros de Ponta Grossa passaram de carro no sentido contrario – retornando – o César parou a fim de perguntar como estava e se necessitava de algo – agradeci dizendo que estava bem – na seqüência passou o Marcos e Makey e por ultimo o Jairo com a Gisele, umas buzinadas, alguns acenos e a certeza de que dali em diante voltaria a ficar sozinho no audax!! Cheguei no PC03 02h:30mim antes de seu fechamento ! Fiquei muito contente com o desempenho, mas estava a ponto de sofrer hipotermia, os extremos dos dedos já estavam roxos, assim como meus lábios. O pessoal da organização recomendou que eu me alimentasse e me aquecesse no restaurante, pois eu já tinha tempo sobrando. Optei em almoçar, massas e batata, encontrei mais dois ciclistas almoçando, um deles chegou a cochilar enquanto falava derrubando o garfo, decidimos fazer o restante do percurso juntos. Ao sairmos, uns 40 minutos após a chegada no PC, toca meu celular, aviso aos companheiros que vou atender a ligação e que tentaria lhes alcançar na seqüência. Minha filha me ligava, preocupada pois não tinha noticias, avisei que estava bem, muito bem, que faltavam apenas 50km, que havia almoçado, e apenas um pouquinho de frio me incomodava, mas que na pedalada me aqueceria. Desliguei, chequei a hora 13:07hs, voltei a pedalar sentindo-me muito bem, como se ainda não tivesse pedalado ainda nenhum kilometro - o almoço e a conversa com a filha foram reconfortantes e re-energizantes – alcancei os colegas 7km após, numa subida forte, mantive o ritmo me distanciando deles. Cheguei ao final da prova às 14h45min. 3h15min antes do seu término, estava cansado mas não exausto, me sentia bem por ter continuado, realizado. Nesse brevet, não considerei ter cometido algum erro, e como acerto tive a decisão de continuar! Alguns dias mais tarde tive a grata surpresa de saber que a organização iria fazer uma nova prova de 300km, dando oportunidade àqueles que por um motivo ou outro não puderam completar a prova anterior, pois largamos em 75 e apenas 25 concluíram. Soube que de Ponta Grossa, o César, Jairo e Gisele fariam a prova. A noticia me deu novo ânimo pois voltaria e ter companhia para as ultimas duas etapas. Por absoluta falta de tempo não pude participar dessa etapa, mas acompanhei os resultados, a Gisele chegou bem, em primeiro lugar, o César e Jairo encontraram grande dificuldade em completar o percurso devido a problema nos joelhos, pedalaram lado a lado, companheiros, sofrendo juntos, auxiliando um ao outro, por inúmeras vezes percorreram kilometros andando, mas não desistiram, guerreiros que são, completaram a prova. Para a prova dos 400km no dia 10 de abril, (aniversário de 16 anos da minha filha) fomos a Gisele e eu, o Jairo e o César ainda apresentavam sinais de desgaste face ao esforço demandado na prova anterior e seus joelhos impediam de participar. Na tarde que antecedia a prova nos reunimos – Gisele e eu – para decidir de pedalaríamos juntos ou não, Gisele foi firme no sentido de que manteria o seu ritmo, pois experiências anteriores fizeram com que decidisse assim. A Largada se daria às 10hs ma manhã, saímos de Ponta Grossa por volta das 05h30, fomos juntos, animados, tensos, com muita expectativa e pouca ou nada de experiência para percorrer 400 km! O trajeto era em parte conhecido, saiba que entre os kilometros 200 e 330 a “coisa era pesada” subidas leves mas extremamente longas; até minutos antes da largada não tinha feito nenhuma estratégia – logo eu que gosto de antecipar tudo! – Alinhados para a largada, revi mentalmente o percurso, decidi “socar a bota” nos primeiros 100km, que iam de Curitiba à Ponta Grossa, foi o que fiz, vento a favor, trajeto conhecido, inicio de prova, “soquei a bota”, cheguei no primeiro PC mesmo antes dele estar aberto. Cheguei bem, coma sensação de ainda não ter pedalado, a organização me deu aquele puxão de orelha - Calma rapaz.... andando assim vai quebrar la na frente.... – Como estava bem resolvi manter um ritmo forte também nos próximos 115 km, até o segundo PC. E foi o que fiz, cheguei neste PC já ao cair da tarde, sabia que dali pra frente o trajeto seria feito no período da noite. O tempo estava bom, nada de chuva, mas a temperatura beirava os 10º. No segundo PC “tirei” uma hora de descanso, para alimentação, troca de uniforme e “recomposição das forças”. A organização recomenda que não cheguemos em curitiba na madrugada, ao menos não sozinhos, pois com certeza seriamos assaltados visto que por um 15km pedalaríamos pelo subúrbio curitibano. Preciso rever minha estratégia, pois havia decidido pedalar leve nos próximos 100 km, e depois voltar a “socar a bota” nos últimos 70km. Mas isso faria com que eu chegasse sozinho e na madruga em curitiba! Saio em direção ao 3º. PC - Lapa – num ritmo calmo, procuro apenas me manter aquecido, sem grandes esforços, dentro do planejado. Logo nos primeiros 15 km encontro o Ivan que havia saído do 2º. PC antes de mim, conversamos um pouco, ele comenta que precisará parar para comer no caminho visto que não se alimentou no PC. Combinamos que nos encontraríamos no 3º. PC para decidir o que fazer, sobre entrar em Curitiba na madrugada ou esperar que o dia amanheça. Sigo no meu ritmo, sozinho, sem sustos, sem pneus furados, sem nada que atrapalhe, ritmo moderado, céu estrelado e frio intenso. Chego ao terceiro PC às 00h:49min, chego bem apesar do frio intenso. Novamente a organização alerta dos riscos de continuar sozinho, decido esperar outros colegas para somente então, em grupo continuar. Por volta de 1 hora mais tarde chega o Ivan, também chegou bem, e decidimos esperar por mais alguns colegas, Mais uma hora de espera, chegam o Célio e a Gisele, também em boas condições. Esperamos todos estarem descansados e às 03:15hs saímos para percorrer os últimos 70 kms. Ritmo moderado, o carro de apoio do Célio nos faria companhia no percurso “perigoso” do subúrbio curitibano, garantindo assim a nossa segurança. Piadas, canções, risos e sarros se fizeram presentes nestes últimos kilometros. Chegamos ao final por volta das 06:30 da manhã, chegamos bem, muito bem os 4. Missão cumprida, agora só falta os 600km!!! Para a prova dos 600km - que se deu no dia 21/05 com largada às 23h59min - já trazemos 900km acumulados de experiência. Sabemos que não daria pra fazer o percurso sem carro de apoio. A prova na verdade começa dias antes da largada, a prudência demanda uma preparação meticulosa, equipamento, alimentação, uniforme para dia, noite, frio, calor. O Pai e o Noivo da Gisele lhe darão apoio, o César – grande parceiro e amigo – fará o meu apoio. Na semana que antecede conversamos diversas vezes via msn – eu e Gisele - me comprometo andar com ela “lá em baixo” - teríamos quase 400km do percurso no litoral. Bikes revisadas, material visto e revisto diversas vezes, nos focamos na prova, cada um fez a sua estratégia individual, mas decidindo andar juntos. Na quarta feira que antecede a prova viajo a trabalho para União da Vitória, sem tempo para um almoço, como 2 pães de queijo e tomo um café enquanto reabasteço de combustível a moto. Começam os problemas, menos de 1 hora depois de fazer o lanche, meu organismo sente os “efeitos”. Em pleno andamento de uma audiência, preciso solicitar um recesso de 5 minutos, pois não me sentia bem. Ali tem inicio um “desarranjo intestinal” que iria me tornar o “Rei do Trono” até a madrugada de sexta feira. Começo a ficar preocupado, os amigos me dizem que estou “branco”, na sexta feira pela manhã me sinto fraco, sou questionado sobre participar ou não da prova, respondo que em momento algum pensei em não participar. Aviso a Gisele que provavelmente não poderei imprimir um ritmo que possa acompanhá-la. Na sexta feira, aproximadamente 10hs da manhã faço minha “ultima visita” ao vaso sanitário, a medicação começa a fazer efeito. O Dia foi corrido, não consegui descansar, pos volta das 21hs, me despeço de meus filhos e saio para curitiba. O césar dirige, permite que eu descanse no trajeto. Como 2 bananas no percurso, e começo a sofrer cólicas. Procuro não prestar atenção nos problemas e tento focar na prova. Chegando em curitiba encontro a Gisele e o amigo Célio, assim com diversos outros atletas. Somos ao todo 17, dos quase 150 que iniciaram a série. Brincadeiras, risos nervosos, percebo no semblante de cada um sem exceção um certo nervosismo. Preciso visitar o “trono” ainda 2 vezes antes da largada. E lá vamos nós, sob uma fina chuva curitibana, me mantenho no final do pelotão, cólicas intensas me acompanham. Antes mesmo dos primeiros 5 km uma queda no meio do pelotão, nada sério, continuamos todos. Aos 15km de percurso decido acelerar o ritmo passando o pelotão – me distancio cerca de 300ms – percebo que acelerando a pedalada as cólicas são menos intensas. Mais alguns kilometros preciso dar uma parada, não me sinto nada bem, estou suando frio, as cólicas aumentaram, e estou “salivando”, o grupo passa, disfarço estar arrumando as mangas da capa de chuva. Permaneço parado por uns 5 minutos, e volto a pedalar. Não vejo mais ninguém na minha frente, acelero o ritmo, crio uma competição em minha mente como forma de me desligar dos “problemas físicos”. 45km percorridos e ainda não vejo ninguém. Chegamos ao inicio da descida da serra e até que enfim começo a ver as luzes traseiras de algumas bikes ao longe. Acelero o ritmo, e inicio a descida da serra de forma acelerada apesar da chuva. Alcanço os ponteiros, me coloco a frente do grupo, descemos juntos. Com o pé esquerdo acerto uma pedaço de madeira que estava no acostamento, apesar da dor, fico feliz em não te-lo acertado com a roda dianteira, pois seria queda certa. Ao final da serra percebo ter me distanciado do grupo, diminuo o ritmo, e por kilometros ninguém aparece. Tinha certeza de que alguém havia caído, mas como estava na dianteira não tinha percebido. Mantenho um ritmo moderado, sem forçar, por diversas vezes olho para trás e não vejo ninguém. Preocupado sigo em frente. 2 km antes do 1º. PC sou alcançado pelo Célio, França e Gisele, que vieram se revezando no vácuo. Chegamos junto no PC, sou informado de que realmente houve uma queda, mas que estavam todos bem. Decidimos fazer um pelotão em 4 - Célio, França, Gisele e eu – para usar o vácuo e chegar em matinhos no ferry boat em tempo de pegar o das 05h30min. Saímos pedalando forte, nos revezando na dianteira. Ganhamos um bom tempo, o Célio sai do grupo ficando alguns metros para trás, os demais mantém o ritmo. Chegando em Matinhos, o França - que conhecia bem o trajeto – informa que faltam 5 minutos para o ferry boat sair e que não conseguiríamos chegar, diminuem o ritmo, eu que fechava o revezamento saio para a esquerda e grito aos dois dizendo que devíamos tentar buscar, forço o ritmo sendo acompanhado pelos dois. 150km de percurso, chuva, vento contra. Já apresentava-mos sinais de cansaço, mas imprimimos um ritmo alucinante – para nossas condições – nos próximos 5 minutos a fim de não perder o ferry boat. Dois topes pesados antes da chegada fizeram com que as pernas e pulmões queimassem, mas conseguimos chegar; agora, torcíamos pelo o célio, queríamos ele junto, olhávamos a estrada tensos, o funcionário do ferry boat começa a fechar o portão de acesso e nesse exato momento o Célio surge, não tem tempo sequer para descer da bike quando o ferry boat começa a se deslocar. Pontualidade Britânica, brincamos, aliviados. Alguns momentos de descanso. Nossos apoios seriam trocados, César, Jairo e Bocão (pai da Gisele), descansariam em guaratuba, enquanto o Valoci - nosso mestre – nos acompanharia no trajeto ferry boat – Posto Rudinicki – Ferry boat. E lá esta ele, às 05:45 da manhã nos esperando do outro lado da travessia, junto com sua esposa, sorriso aberto, semblante sereno, meu guru, mentor e amigo. Nos despedimos do apoio que iria “descansar” e seguimos em frente os quatro guerreiros. Pedalamos num ritmo moderado alternando a ponteira de maneira a não desgastar excessivamente nenhum dos 4. Chegando em Garuva ao subir do acostamento para o asfalto para evitar algumas “tartarugas” não faço a manobra corretamente e o pneu traseiro derrapa na saliência entre o acostamento e o asfalto e sofro uma queda. Gisele consegue desviar, sinto a roda dianteira dela roçando o meu capacete, mas ela consegue evitar sua queda. No chão já sinto uma dor dilacerante no ombro esquerdo - havia acertado uma das “tartarugas’ com ele. O tornozelo esquerdo também dói, menos que o ombro mas percebo que também o machuquei. Alguns carros param, sou ajudado a levantar pois não consigo sozinho. Tenho câimbra na panturrilha direita, permaneço alguns momentos em pé, checando mentalmente minhas condições, decido continuar antes de “esfriar o corpo”, a bike sofre alguma avariações mas nada que impeça de continuar. Tínhamos percorridos 140 km, e estávamos a uns 30 km do 2º. PC – continuamos. O trajeto não é pesado, mas a chuva ainda incomodava. Alguns kilometros rodados e a dor no ombro se torna mais intensa, terrível a ponto de não conseguir fazer a troca de marcha e nem ao menos firmar a mão no guidão. Acelero me distanciando do grupo para poder “gemer” sozinho, percebo que as cólicas cessaram.. Tudo tem um lado bom não é mesmo ? Chegamos no 2º. PC praticamente juntos, com apenas alguns minutos de diferença. Vamos comer, percebo um inchaço no ombro direito. O Valoci checa, concluímos não haver nada quebrado era “apenas” uma luxação. Iria incomodar mas não impediria a continuidade da prova. Na largada constato que o pneu dianteira da bike da Gisele está murcho, enchemos e o selante faz seu papel, não a necessidade de trocar. Ao limpar a corrente seu Valoci verifica que existe um elo “abrindo”, é necessário trocar o mesmo. França e Célio decidem prosseguir, fico com a Gisele, após o conserto seguimos os dois, kilometros a frente encontramos o Célio nos aguardando, comenta que o França estava num ritmo muito forte. Seguimos os três, ritmo moderado, neste trajeto, Gisele e Célio furam um pneu cada um, ficamos os três juntos não nos separamos. Mentalmente refiz o percurso que faltava, percebi que chegaríamos na Serra do Mar já ao cair da tarde, e que teríamos que fazer parte dela no período da noite. Era só o que eu não queria, sabia que a maioria dela era feita com terceira pista, sem acostamento, e que os caminhões que retornavam do porto de Paranaguá subiam vazios em alta velocidade, e a chuva complicaria a visibilidade. Ao chegar em Garuva decidimos almoçar e fazer uma parada estratégica para descanso. Após a parada, bikes e “cadáveres” em dia seguimos os três rumo ao ferry boat, encontramos outros 6 participantes, descontraímos, soubemos que o Ivan havia rodado alguns kilometros com a bike somente no aro, que alguns outros já haviam desistido, mas no geral estavam todos bem. E fomos nós, rumo ao 3º. PC já na BR 277. A chuva deu uma pequena trégua, enfim o sol, Gisele e Célio usaram protetor solar! Cerca de 15km antes do 3º. PC chega a minha vez de furar pneu, caco de vidro, o selante não resolve e tenho que parar para troca de câmara. O célio me ajuda, e já na montagem da roda Gisele e Célio saem, pois a chuva voltava com força total, demoro ainda uns 10 minutos para sair, guardar ferramentas, colocar luvas etc... Tento alcançar os dois escapados mas vejo que é inútil, o ombro dói demais e estou rodando apenas com a coroa menor, pois o cambio dianteiro apresenta problemas. Não alcanço nem mesmo os outros 6 participantes que haviam me ultrapassado enquanto me preparava para voltar a pedalar. Chegando ao 3º. PC constato que estão todos lá. Apenas troco minha água, como uma banana, e me disponho a sair, Gisele e Célio já descansados saem juntos. Pergunto à organização quantos kilometros temos antes do inicio da subida da serra, que me respondem serem aproximadamente 20km. Decido imprimir um ritmo forte para chegar na serra o mais cedo possível – queria aproveitar a luz do dia o maior tempo possível. Pedalo forte, imaginando que Gisele e Célio estejam na minha roda. Surge um novo problema: como não conseguia firmar a mão direita no guidão devido a terrível dor no ombro, passei a forçar a mão esquerda, percebo que não sinto três dedos dessa mão. Menos mal, brinco comigo mesmo, ao menos não sinto frio nesses dedos! Chego na subida da serra, chuva, frio, dor e cansaço, sabia que viram cerca de 25km de tortura, percebo que os dois companheiros ficaram para trás. Me concentro, procuro esquecer tudo aquilo que não seja o equilíbrio na bike e a força no pedal. Tento mudar a pegada para o centro do guidão, o braço direito não permite; dói demais qualquer tentativa de movimento com o mesmo. Diminuo o ritmo, a chuva não dá trégua, o frio volta com a diminuição do ritmo da pedalada. Obras no asfalto, meia pista em diversos lugares, caminhões passando em alta velocidade “lambendo” a bike, sujeira, soja e óleo fazem uma camada “perigosa” junto aos muros da direita. Quando procurava pedalar o mais a direita possível junto ao muro, o pneu traseiro patinava na mistura de água da chuva, lama, soja e óleo, pedalar ali seria risco certo de queda. Saio então um pouco para a esquerda, risco de atropelamento, os caminhões andavam em grupo, então sabia que o primeiro poderia até me ver, mas e os demais que vinham atrás, somente viam a cortina d´água que o primeiro levantava. Começo a rezar, pedindo proteção para mim e para todos aqueles que vinham na seqüência, pedindo que Deus iluminasse o caminho dos veículos que passavam por nós. Foram quase duas horas de frio intenso e medo, o ombro passou a incomodar mais ainda, pois precisava segurar o guidão com as duas mãos, a dor já descia pelo lado direito do meu peito. Decidi parar para descansar no Neutralizado logo após o termino da subida da serra, junto ao pedágio. Cheguei ao final da Serra aliviado, havia vencido o que para mim era o trecho mais difícil e perigoso dos 600km. Frio intenso e dor eram companheiras, o pé esquerdo passou a incomodar ainda mais. Chegando ao neutralizado tremia de frio, ali encontrei o França que apresentava sinais de desgaste físico e emocional intenso. Conversamos e ele afirmou que não continuaria, que estava molhado e com muito frio, oferecemos – César e eu – roupas secas e quentes a ele, o qual respondeu que esperaria o seu apoio e desistiria, tentei convence-lo a continuar mas, estava irredutível. No banheiro me lavei como pude, e troquei de uniforme, nesse ínterim chegou o apoio do França que após a troca de roupa se dispôs a continuar e saiu em direção ao 4º. PC – já em curitiba à aproximadamente 45km dali. Estou comendo quando chegam Gisele e Célio, também visivelmente cansados e sofrendo com o frio. Se aquecem, trocam o uniforme e se dispõe a sair, avisam que vão parar em curitiba, o Célio para um banho e dormir até o amanhecer do dia, e a Gisele para um banho e ao menos uma hora de repouso. Aviso que não descansaria no 4º PC, que meu descanso estava se dando ali. Saem os dois, saio depois de alguns minutos e os encontro logo nos primeiros 5km seguintes, decidiram me esperar parar juntos irmos até Curitiba. E Lá vamos nós juntos outra vez, num ritmo moderado, conversando, cada um com sua estratégia para prosseguir após o 4º. PC. Célio está firme na decisão de dormir e sair ao amanhecer, assim como a Gisele e descansar até sentir-se em condições de enfrentar os últimos 200km de prova. Chegamos no 4º PC por volta de 22:15, praticamente juntos, o Célio furou pneu cerca de 500 metros antes e veio andando. Encontro o França já sem uniforme, recolhendo seus pertences, diz não ter condições de continuar, demonstro meu pesar dou um abraço no novo amigo e o parabenizo pela garra que dispendeu até aquele momento. O pessoal de apoio uma vez mais dá um show, pegam as bikes para lavar e revisar, peço ao jairo que de uma olhada no cambio dianteiro que não estava “subindo”, como sabem que serei o primeiro a sair se concentram na minha bike. Deixam ela como “nova”, experimento e fico feliz com o resultado, me disponho a sair, e acertamos a estratégia com o César. Ele avisa estar com muito sono, combinamos que ele descansaria o quanto fosse necessário. Eu iria sozinho em direção a Ponta Grossa, e se tivesse algum problema ligaria avisando. Pesamos os perigos de um pedal sozinho na noite e já após 400km rodados. Eu me sentia muito bem, e como conhecia o percurso não vi maiores problemas. Nos despedimos e lá fui eu, rumo ao 200km finais. Logo na saída da marginal, não peguei a pista do contorno sul onde deveria, indo pela marginal. Percebi meu erro mas insisti em continuar com a esperança de encontrar algum outro acesso mais a frente. Nada de acesso, alguns kilometros a frente um carro de policia, com policiais de arma em punho abordavam dois rapazes numa moto, gritos, tapas, mas sequer perceberam a minha presença. Mais a frente um acampamento de ciganos com muita gente na pista, nesse momento decidi atravessar para a pista do contorno mesmo sem acesso, pé no barro e mato, mas estava de volta ao trajeto original. A Chuva aumenta e com ela o frio, pedal tranqüilo, meu faróis já não me ajudam, estava com dois auxiliares pois o principal havia estragado já nos 95km de prova. Vento nas costas, trajeto conhecido, mas optei em imprimir um ritmo lento, pois uma queda certamente me tiraria da prova. Percorro os primeiros 40km num ritmo lento, mas seguro, sabia que tinha tempo “de sobra” para completar a prova. No inicio da subida da serra surge o que seria a maior dificuldade para continuar na competição: SONO, de uma hora para outra o sono veio, não consigo manter os olhos abertos, começo a cantar, gritar, rir feito um louco, nada ajuda, tapas no rosto, tento pedalar em pé mas meu ombro não permite firmar a mão no guidão o suficiente. Durmo pedalando, acordo por 3 vezes no meio da pista, me assusto com o risco de ser atropelado. Nada me faz permanecer acordado, algumas vezes “enxergo” companheiros de pedal na minha frente, pedalo mais forte para lhes alcançar e ir conversando a fim de espantar o sono, quando “caio em mim mesmo” percebendo que não tem ninguém, estou à frente de todos, já estou variando! Momento de extrema dificuldade, por ironia passo “dormindo” pelo único posto 24 horas naquela região, Posto Ale junto a Balança. Chego a cogitar parar e dormir num ponto de ônibus na beira da estrada mesmo correndo o risco de tal atitude. Decido caminhar um pouco para espantar o sono, e sou surpreendido duas vezes pois dormia andando e a bike caia ao chão. Pela primeira vez no percurso todo fico sem saber o que fazer, nesse momento meu celular toca insistentemente, decido atender, é minha filha preocupada por falta de noticias minhas. Encho o peito de ar, digo que estou bem, que estou “sobrando”, quase chegando em Ponta Grossa, e só faltaria voltar até curitiba, brinco com ela, falando algumas baboseiras, escondo a verdadeira situação, ela me pergunta se eu havia caído, respondo que não. Filha tranqüilizada, sinto-me melhor, enxugo algumas lágrimas que insistiram em cair e volto a pedalar re-energizado! Chegando ao Posto Panorâmico, tomo uma xicara de café e compro algumas balas – meu organismo necessitava de açúcar – volto para a estrada novo em folha, o café parece ter tirado o sono “com a mão”. Pedalo forte novamente, num bom ritmo, sou alcançado pelo césar que pergunta das minhas condições, estranha o tempo que demorei para chegar até ali, informo que diminui o ritmo devido a iluminação fraca e pelo sono. Ele me informa que o Célio havia desistido em curitiba, e que a Gisele estava no trajeto, também pedalando com cautela. Chego no 5º. PC, anotam meu horário: 3h:45min, somente aí vejo o tempo que levei, pois havia saído de curitiba por volta de 22:30, foram 5h:15min ! num trajeto que normalmente levaria 3h:30! Como me sinto bem novamente boto a bike na estrada, já nos primeiros 2km encontro Gisele vindo escoltada pelo carro da organização, gritos de ambos nos cumprimentando e sigo em frente. Alguns kilometros após o César me informa que Gisele sofreu uma queda devido ao sono, preocupado pergunto como ela está, bem, responde o césar, não sofreu nada grave. De volta na região de vila velha o carro da organização segue ao meu lado, Roberto informa que meu tempo está excelente; respondo que o ritmo deveria cair pois após a subida do Tibagi irar ter um vento forte contra, me deseja boa sorte dizendo que iria me esperar na chegada. E lá sigo eu, faltam menos que 80km, o dia amanhece e com ele volta a chuva e o vento contrário. Não adianta mais forçar o ritmo, já se vão mais de 30hs de pedal, as pernas não respondem ao comando do cérebro. Procuro manter um ritmo moderado, já não pedalo nas descidas, o frio volta a castigar e com ele a dor no ombro aumenta. Dentes cerrados, testa franzida, olhos semi-abertos, passo a me concentrar na respiração, e lá vamos nós, subida para o Spréia, terrível, subida para o pedágio da serra, mais terrível ainda. O César passa a diminuir a distancia entre nós, a cada 5 ou 6 km passo por ele estacionado, palavras de incentivo tais como: vai, está no fim, você é o cara, não é subida é reta inclinada! E coisas afins tornam os últimos kilometros mais amenos. Descida da serra, descanso para as pernas, tormento para o ombro direito e para o tornozelo esquerdo. Campo Largo fica para trás, começo a visualizar mentalmente a chegada, procuro esquecer qualquer outra circunstância. Subida para o Posto da Policia Rodoviária de Curitiba, últimos kilometros estou a menos de 3km da chegada, de completar 600km de pedal. Ameaço um sorriso que mais parece uma careta de dor, paro no Posto da Policia Rodoviária, decido tirar a capa de chuva, abraço o amigo César - verdadeiro anjo da guarda e sigo em frente rumo a chegada. E lá chegamos nós, Eu e o César, vencedores estafados do Audax 600km, felizes e satisfeitos, somos recebidos pelo pessoal da organização, abraços risos e muita satisfação. Sensação de REALIZAÇÃO ! Obrigado César ! Obrigado Deus! Me perguntam de vou tentar a França ano que vem, apenas dou um sorriso, para tal será necessário completar toda a série novamente e contar com muito apoio financeiro. Mas se não der para fazer os 1.200km da França em 2011, certamente farei a travessia de Oeste a Leste dos EUA em 2012, essa um pouco mais longa 5.000 km ! Tentar Sempre, Ganhar Talvez... Desistir JAMAIS !!! |
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APOIADORES DO PROJETO “A VIDA LHE DÁ LIMÕES? FAÇA UMA LIMONADA!” - 800 KM ENTRE CURITIBA E PORTO ALEGRE |
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JORGE AOKI |